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“A Psicologia e a Escola”

O que Freud e Piaget pensam a respeito da educação?



Na tentativa de diminuir a enorme distância que há entre a psicologia e a educação, trago um breve histórico do trajeto percorrido pela escola em relação à teorização psicológica das atividades pedagógicas.


Segundo Figueira (1991), nas décadas de 60 e 70, chega ao Brasil uma “onda libertária”, trazendo as ideias Construtivistas, levando a educação à uma polarização: “tradicionais X experimentais”.


No retrato estereotipado que esse debate faz, haveria dois tipos de educação: uma “educação tradicional” que se definiria como repressora, controladora e autoritária. A essa pura encarnação do mal viriam se opor as “escolas experimentais”, com suas posturas radicais no que ficou conhecido como “educação alternativa”.

Surgidas no bojo dos movimentos contra o regime militar, “essas escolas eram pequenas ilhas de liberdade que procuravam proteger as crianças do autoritarismo vigente e opunham a criatividade à cartilha das escolas tradicionais” (Bacha, 1998).


Em 1970, quando desse boom das escolas alternativas no Brasil, a realidade escolar já vinha sendo convulsionada em outros lugares do mundo: em 1921 A.S. Neill inaugura, na Inglaterra, Summerhill, escola da pedagogia alternativa que os anos 60 iriam multiplicar. E com ela, ao que parece, a polarização de liberdade e de conteúdo.

O ensino é um fardo realmente pesado que os adultos impõem às crianças” (Neill, 1973). Com esta frase, Neill choca a sociedade da época: “Talvez seja Summerhill a escola mais feliz do mundo!” ele diz. Ali não há brigas nem discussões e raramente se ouve uma criança chorar, porque as crianças, quando em liberdade, têm muito menos ódio a expressar do que quando são oprimidas. Ódio gera ódio, amor gera amor, segundo Neill.

Erich Fromm escreveu, na primeira metade do século XX, sobre as ideias de liberdade, democracia a autodeterminação, proclamadas por pensadores progressistas durante o século XVIII, que foram retomadas pela educação. O princípio básico dessa autodeterminação era a substituição da autoridade pela liberdade, diz ele. Abandonou-se o uso da força; ganhou-se o interesse da criança para o mundo que a rodeia, apelando-se à sua curiosidade e às suas necessidades espontâneas. “Essa atitude marcou o início da educação progressiva e foi passo importante no desenvolvimento humano” (Fromm, 1973).


Podemos discordar de Neill e rejeitar, hoje, o romantismo de Summerhill; mas abriu-se ali uma pergunta que as experiências pedagógicas que se sucederam não responderam. Com enorme ousadia, Neill resolveu perguntar: por que aprendemos? Sônia de 14 anos escreveu-lhe uma carta: “Detesto minhas lições. Por que preciso estudar matérias como Geografia, História e Matemática? Estes estudos me farão algum bem?” Neill responde que ela jamais vai usar aquilo que aprendeu na escola e conclui: “Só posso responder, tristemente ‘enfrente os estúpidos estudos e aguarde, esperançosamente, o dia em que deixará a escola e iniciará sua verdadeira educação” (Neill, 1967).


Neste desprezo pelo intelectual, diziam-no tributário de Freud... Experimental ou tradicional? Razão ou emoção? Liberdade ou conteúdo? Facilmente somos arrastados a uma escolha que, todavia, não nos satisfaz.


Não são poucos os especialistas que não vacilariam em discordar da aplicação que essas escolas fizeram dos conhecimentos psicológicos. No que se refere ao boom de Piaget no Brasil, por exemplo, a Revista do Conselho Federal de Psicologia (Psicologia. Profissão e Ciência) trouxe depoimentos de membros das equipes universitárias de Pernambuco e São Paulo, onde se lê que a expressão “escola Piagetiana / Construtivista” foi muito usada a partir dos anos sessenta por muitas escolas no Brasil, sobretudo as particulares. Mas, na maioria dos casos, correspondia a uma mudança simplesmente “cosmética”, equivalente à aplicação de uma “nova pintura” no prédio da escola.


Na mesma matéria Zélia Chiarottino revela que essa “aplicação prática” provocou enormes distorções na teoria piagetiana no Brasil. Piaget teria “sido utilizado por pedagogos desconhecedores da sua teoria” e isso “foi péssimo” porque deturpou “sua imagem de filósofo e cientista”. Escolas “piagetianas” teriam sido abertas por desconhecedores da teoria, que é difícil e, sua aplicação prática, mais difícil ainda. Piaget até pode ser aplicado à pedagogia, mas a sua teoria não pode ser transformada numa pedagogia. “Piaget não é pedagogo nem psicólogo do desenvolvimento. Ele criou uma teoria do conhecimento que tem suas origens na biologia, que é uma teoria sobre o organismo humano, sobre o processo de cognição ou da construção da inteligência humana” (Chiarottino, 1987).

A originalidade incontestável de Neill residiria na abstenção, na “recusa de impor uma orientação aos desejos e, consequentemente, às atividades das crianças”. “Método de liberdade” que Neill teria deduzido “da ideia” – que acredita ter tirado da psicanálise – de que “repressão engendra a neurose”. Acredita que é necessário e suficiente proteger a crianças de um mal cuja origem está na sociedade” (Millot, p. 147).

Incorporadas pelas escolas experimentais, a psicanálise e a psicologia transformaram a realidade pedagógica. Tomar a psicologia que se introduziu nas escolas como testemunha do estreitamento da educação operado pelo profissional ‘psi’ no funil da adaptação não é suficiente para entender o que os psicólogos pensam a respeito da educação. Mas com certeza mostra as dificuldades com as quais têm se enfrentado os professores em suas atividades, permitindo que comecemos a encurtar a distância que separa a psicologia/psicanálise educacional do professor.

Dentre tantas dificuldades, chama especial atenção a polarização de liberdade e coação, que se duplica ainda na polarização de liberdade e ensino, mostrando ao professor como personagem inteiramente dividido entre libertar e reprimir. Pareceria que educar consistiria, essencialmente, em fazer uma escolha: sacrificar – sim ou não – a liberdade.

Entende-se a educação como uma adaptação do indivíduo à sociedade, faltando apenas definir, criar e inovar os meios para obtê-la.

Apesar de unânime e tradicional, um único modo de compreender a educação convida à reflexão. Não daria ele uma visão muito restritiva da atividade do professor e do papel da escola na vida do sujeito? Não conteriam, as teorias piagetianas e psicanalíticas, outros elementos importantes para tal, mas que não chegaram a mesma difusão social?


Seguimos com mais perguntas do que respostas! Continuaremos nossas reflexões. Não seria este o principal e fundamental papel da Educação e dos Educadores? Eternamente perguntar, perguntar, perguntar?! Fica a dica...


Adriana Cavaggioni














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